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terça-feira, 26 de junho de 2012

A RESILIÊNCIA DO PROFESSOR... DE EDUCAÇÃO FÍSICA

Hugo Norberto Krug

Considerações iniciais a respeito da resiliência do professor... de Educação Física
Considerando que este ensaio faz parte do espaço formativo do GEPEF intitulado “Cenas e cenários sobre formação e prática pedagógica de professores de Educação Física”, o mesmo tem como objetivo abordar a importância do desenvolvimento da resiliência para a atividade do professor... de Educação Física.
        Neste direcionamento citamos Yunes (apud VARGAS, 2009) que coloca que o estudo do fenômeno da resiliência é relativamente recente. Vem sendo pesquisado há cerca de trinta anos, mas apenas nos últimos cinco anos os encontros internacionais tem trazido este constructo para discussão. A autora citada destaca que a expansão do conceito de resiliência ainda mostra-se reduzida ao contexto acadêmico e científico, sendo que, neste cenário, seu estudo não se apresenta consolidado.
        O seu uso no Brasil ainda se restringe a um grupo bastante limitado de pesquisadores de alguns círculos acadêmicos. Muitos profissionais da área da Psicologia, da Sociologia ou da Educação nunca tiveram contato com a palavra e desconhecem o seu uso formal ou informal, bem como sua aplicação em quaisquer das áreas da ciência (YUNES apud VARGAS, 2009).
        Aplicado às Ciências Humanas, mais especificamente às áreas da Psicologia e/ou Educação, o conceito evoluiu e adquiriu características que parecem permitir avaliar indivíduos de acordo com as suas possibilidades de enfrentamento de adversidades (VARGAS, 2009).
        Entretanto, existem duas gerações de pesquisadores sobre o tema. A primeira teve interesse em descobrir os fatores protetores que estão na base da adaptação positiva em crianças que vivem em condições de adversidade. A segunda expandiu o tema em dois aspectos: a noção de processo, que implica a dinâmica de fatores de risco e de resiliência, permitindo ao indivíduo superar a adversidade, bem como buscar modelos para promover a resiliência de forma efetiva (YUNES apud VARGAS, 2009).
        Mas, para um melhor entendimento desta temática precisamos abordar algumas questões, entre elas as descritas a seguir.

O conceito de resiliência
        De acordo com Junqueira e Deslandes (2003, p.228) resiliência é entendida como uma “reafirmação da capacidade humana de superar adversidades e situações potencialmente dramáticas”. Ou seja, o indivíduo resiliente é aquele capaz de superar frustrações e/ou situações de crise e de adversidades.
        Segundo Souza (2009) a palavra resiliência, do verbo latino resílio (re+salio) “saltar como uma mola, uma bola de borracha, voltar ao ponto de partida”, remete diretamente para a idéia de elasticidade, flexibilidade, característica essa que é fundamental para educadores e educandos e que pode ser desenvolvida.
        Uma definição mais ampla sobre resiliência: a) resiliência não é um processo estanque; b) resiliência não é oposto de fator de risco; c) desenvolver resiliência não é o mesmo que superação de vivências traumáticas; d) resiliência é como um “banco de dados” que protege o indivíduo; e) o conceito de resiliência nos mostra o ser humano como capaz de superar adversidades; e, f) cada um de nós tem uma capacidade psíquica particular para o enfrentamento dos problemas da vida (BRASIL, 2008).
        Já, Grotberg (apud VARGAS, 2009), considerando o contexto escolar, define resiliência como a capacidade humana para enfrentar, vencer e ser fortalecido ou transformado por experiências de adversidade. Assim, segundo Vargas (2009), percebemos que o significado de resiliência e sua definição tem sido objeto de debates durante anos. Todavia, parece haver consenso sobre a possibilidade de adaptação positiva em meios adversos e com riscos significativos.

O conceito de resiliência na educação
        Conforme Souza (2009) resiliência na educação é:

A possibilidade de desenvolver capacidades necessárias para se sobrepor às adversidades cotidianas, superando-as e transformando-as e transformando-se, com diferentes níveis de construção, de uma vida pessoal e profissional significativa, saudável e construtiva (p.4).

        A autora ainda acrescenta que podemos pensá-la como uma noção que pretende consubstanciar conceitualmente uma especificidade estrutural do desenvolvimento humano, que se traduz na capacidade que denotam certas pessoas, grupos ou comunidades para fazer face ou mesmo ultrapassar os efeitos desestruturantes que seriam muito prováveis em conseqüência da exposição a certas experiências.

A importância do desenvolvimento da resiliência para a atividade do professor
        Souza (2009) coloca que todos temos consciência das dificuldades atuais inerentes ao ato educativo, particularmente, quando as áreas de formação são caracterizadas por uma pluridimensionalidade antropológica, cultural, ética e axiológica, que tornam o processo de elaboração de um corpo teórico específico e a sua partilha como uma estratégia simultaneamente complexa e sedutora, mas difícil de lavar a cabo.
        A autora salienta, sem negligenciar a importância do contributo que os referenciais conceituais, metodológicos e estratégicos e os valores que os sustentam poderão fornecer ao professor, importa, sobretudo, que este seja capacitado para reconstruir ao longo de sua trajetória pessoal e profissional uma capacidade potencial para um desempenho adequado e para estar preparado para intervir no sentido da inovação e da transformação, nos seus diversos contextos. Daí a necessidade do professor desenvolver esta capacidade.

Como desenvolver a capacidade de resiliência
        Para Souza (2009) a personalidade do ser humano pode já conter as ferramentas para isso. As pesquisas apontam que a resiliência é o resultado de características particulares associadas ao comportamento sociável, temperamento, caráter e inteligência. Estas pesquisas postulam que todo o ser humano nasce com uma capacidade inata para isso, através da qual pode desenvolver a sua capacidade de adaptação. É esta capacidade que lhe possibilita, mesmo em presença de graves problemas familiares, em nível comunitário, ou outro, ser capaz de superar as desvantagens e transformar uma trajetória de risco em resiliência, apresentando-se como um adulto competente, confiante e atencioso.
        Acrescenta que a resiliência contém, assim, um componente diferencial, que explica a razão porque certos indivíduos, em circunstâncias aparentemente idênticas, lidam com a adversidade de um modo mais adequado do que outros. Será também, suscetível de evolução, podendo por isso ser ativada mediante certas intervenções apropriadas, nomeadamente em contextos educativos.

Considerações finais a respeito da resiliência do professor... de Educação Física
Para finalizar é interessante citar Vargas (2009) que diz que é importante destacar que as adversidades estão inseridas na vida humana e as descobertas sobre a resiliência parecem indicar caminhos para um desenvolvimento mais positivo diante dos enfrentamentos das dificuldades. Salienta que pelo fato de propor um estado de fortalecimento individual, de melhora após o embate, a resiliência pressupõe uma inovação em relação ao desenvolvimento humano. Assim, a resiliência já se apresenta, no contexto escolar, como uma habilidade psicológica muito importante e que merece ser incentivada, sendo um processo de adaptação aplicável ao desenvolvimento em ambientes favoráveis ou adversos.
Ainda Vargas (2009) sugere que o estudo da resiliência no contexto escolar, de forma geral, passe a ser abordado no contexto específico das disciplinas escolares.
        Assim, por todas estas considerações foi que consideramos importante abordar o desenvolvimento da resiliência para a atividade do professor... de Educação Física.

Referências
JUNQUEIRA, M.F.P.S.; DESLANDES, S.F. Resiliência e maus tratos à criança. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v.19, n.1, p.227-235, jan./fev., 2003.

SOUZA, C.S. A arte da superação. Jornal Extra Classe, Porto Alegre, a.14, n.133, p.4-6, mar., 2009.

VARGAS, C.P. O desenvolvimento da resiliência pelas atividades da escola. Revista Espaço Acadêmico, n.101, p.109-115, out., 2009. Disponível em http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/index . Acessado em 15/05/2011.

A GESTÃO DE AULA NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR

Hugo Norberto Krug

Considerações iniciais a respeito da gestão de aula na Educação Física Escolar
Considerando que este ensaio faz parte do espaço formativo do GEPEF intitulado “Cenas e cenários sobre formação e prática pedagógica de professores de Educação Física”, o mesmo tem como objetivo abordar a gestão de aula na Educação Física Escolar.
Neste direcionamento de temática citamos Arends (2005) que coloca que as pesquisas sobre gestão de aula classificam-se em três orientações:
1) Ênfase no indivíduo – Quando entende que os problemas de gestão de aula relacionam-se a questões psicológicas dos alunos a aos desvios de comportamentos manifestados individualmente. Recomenda intervenções específicas e procedimentos disciplinares;
2) Ecologia na sala de aula e processo de grupo – Quando entende que uma boa gestão de aula tem como principal função planejar e dirigir atividades grupais bem concebidas e que fluam sem problemas, ou seja, a gestão de aula depende da capacidade de planejamento e interação no grupo do docente; e,
3) Ensino eficaz – Quando há uma relação de rendimento do aluno e envolvimento desse nas atividades, portanto enfatiza-se a importância da ocupação e envolvimento do aluno nas atividades propostas.
        Ainda Arends (2005) ao analisar estudos feitos por Julie Stanford concluiu que os bons gestores têm procedimentos que regem as conversas, a participação, o movimento, as mudanças nos trabalhos e o que fazer nos tempos mortos das aulas; dão explicações claras; coibem comportamentos perturbadores rapidamente; acompanham cuidadosamente o progresso dos alunos.
        Mas, para um melhor entendimento desta temática precisamos abordar algumas questões, entre elas as descritas a seguir.

O conceito de gestão de aula
        Para Arends (2005) gestão de aula é conceituada como “os modos pelos quais os professores organizam e estruturam suas salas de aula, com o propósito de maximizar a cooperação e o envolvimento dos alunos e diminuir o comportamento disruptivo” (p.555).
        Já segundo Perrenoud (2000) gestão de aula é a organização e a direção de situações de aprendizagem.

As ações de gestão de aula
        Arends (2005) destaca algumas ações do professor que afetam e estão vinculadas à gestão de aula: 1) Planejar detalhadamente as aulas; 2) Atribuir tempo às atividades de aprendizagem; 3) Fazer considerações acerca da utilização do espaço da aula; 4) Ajudar os alunos a trabalhar em grupo; 5) Atentar-se à motivação dos alunos; e, 6) Proporcionar um discurso aberto e honesto.

Os procedimentos de gestão de aula
        Arends (2005) recomenda atenção a três procedimentos de gestão de aula. Estes são os seguintes:
1) Gestão preventiva – Consiste em planejar regras e procedimentos antecipadamente que serão aplicadas nas aulas. Os procedimentos são as maneiras de conduzir as atividades em aula. As regras são afirmações que definem o que os alunos podem e não podem fazer. Alguns itens da gestão preventiva são:
a) Ensino das regras e procedimentos – É importante que o professor faça os alunos compreenderem o motivo e a fundamentação moral ou prática de cada regra estipulada. Os gestores eficazes utilizam, principalmente, a primeira semana do ano letivo para ensinar as regras e procedimentos;
b) Prevenção de comportamentos desviantes – Deve-se manter o fluxo das atividades e não fragmentar ou repetir muito as instruções, pois se quebra a tranqüilidade e o ritmo da aula;
c) Orquestração das atividades em períodos instáveis – No inicio da aula alguns alunos podem fazer a chamada ou outras tarefas administrativas para liberar o professor, ele pode estabelecer rituais que indicam aos alunos que o trabalho sério começará. São os períodos de transições de atividades que os comportamentos perturbadores ocorrem e um bom planejamento aponta quais serão esses momentos evitando-os antecipadamente. O término da aula também pode gerar perturbações, portanto é recomendável dar alertas indicando que o fim da aula está próximo, deixar tempo suficiente para que os alunos concluam as atividades finais e ensinar a eles que somente podem deixar o ambiente de aula quando o professor disser e não quando bater o sinal; e,
d) Desenvolvimento da responsabilidade dos alunos – Para que a responsabilidade dos alunos se desenvolva o professor dever proporcionar tarefas com objetivos, prazos e procedimentos claros, deve comunicar a tarefa de forma clara, monitorar o trabalho do alunado para ter consciência do seu progresso, deixar os alunos corrigirem as suas próprias tarefas recebendo assim retornos rapidamente, ser claro nas instruções de conteúdos e fornecer retornos aos alunos, pois a base para melhorarem vem desse feedback;
2) Gestão de comportamento inadequado e perturbador – É importante identificar o comportamento e coibi-lo sem interromper a aula fazendo a sobreposição. Os comportamentos disruptivos e indisciplinados que necessitam ser trabalhados nos alunos não devem ser o mote da inetrvenção e muito menos devemos apenas ser controladores do comportamento. As indisciplinas devem ser coibidas sem perturbar o andamento da aula, porém a energia a ser dispendida na dimensão atitudinal será no planejamento e implemento de atividades que possibilitem o desenvolvimento de atitudes positivas. Na lógica da dimensão atitudinal a ação pedagógica visando o desenvolvimento de atitudes deve ser feita de forma planejada e ininterrupta; e,
3) Exibição de confiança e influência – Para isto o professor precisa demonstrar confiança na voz e na postura durante as aulas.

A gestão de aula em Educação Física
        A gestão de aula em Educação Física é apresentada por Gallahue e Donnelly (2008) como um bom controle da turma em três dimensões. São elas: 1) A organização dos alunos para a aprendizagem (formação de grupos; padronização das técnicas); 2) O uso dos materiais (distribuição e coleta); e, 3) O aproveitamento do tempo (maximizar o tempo de aprendizagem).
        Para Gallahue e Donnelly (2008) a organização é a característica primordial do bom gestor de aula em Educação Física. É preciso organização para o processo de planejamento. E, é preciso organização no decorrer da aula. Protocolos de aula (rotinas e procedimentos) e regras para o bom comportamento. Estes são dois componentes da gestão eficaz de sala de aula.
        Protocolos são procedimentos a serem seguidos em um evento recorrente nas aulas tais como: beber água, usar o banheiro, dispensar as roupas tiradas pelos alunos durante a aula, iniciar e finalizar atividades, formar pequenos ou grandes grupos.
        As regras para o bom comportamento e as sanções devem ser formuladas em conjunto para realçar o sentimento de apropriação e comprometimento. As regras devem ser positivas, simples e concisas e as sanções claras. Ao formular as regras devemos evitar o uso do “não” para reforçar o caráter positivo das regras. As regras e as sanções estipuladas tornam os alunos mais seguros durante as aulas por saber qual é o padrão de comportamento esperado pelo professor e contribuem para a auto-disciplina dos alunos.
        Gariglio (2004) reconhece a maior complexidade e riqueza das aulas de Educação Física acerca da gestão de aula.
        Já para Gallahue e Donnelly (2008) algumas peculiaridades das aulas de Educação Física nos impedem de fixarmos um padrão de gestão de aula: são elas: a) Não lidamos com uma turma o dia todo e sim com várias em uma parcela do dia; b) O ambiente físico das aulas (pátio e quadra) suscita comportamentos diferentes dos vistos em sala de aula; e, c) Cada turma comportar-se-á conforme os padrões estabelecidos pelo professor da sala.
        O autor destaca que o professor de \educação Física, pode precisar modificar seus métodos para adquirir e manter o controle da turma.

Considerações finais a respeito da gestão de aula na Educação Física Escolar
        Para finalizar é interessante citar Perrenoud (2000) que diz que mesmo levando em consideração tudo o que foi mencionado anteriormente, é pertinente destacar que a gestão da aula, ou a organização e direção de situações de aprendizagem, precisa se valer de criatividade ao propor tais situações para que o aprendizado ocorra para todos. Pois para alguns alunos, a explicação e exercícios posteriores não são o suficiente para garantir o aprendizado. Logo, o docente deve adotar modelos centrados no aprendiz. Nesse sentido, a gestão de aula torna-se o desafio do professor dialogar com as necessidades do grupo no qual atua e não simplesmente controlar os comportamentos dos alunos a fim de garantir a transmissão do conteúdo. Alguns aspectos individuais do alunado precisam ser considerados pelos docentes, pois interferem nas situações de aprendizagem e no modo como devemos gerir a sala de aula: humor momentâneo; disponibilidade momentânea; possibilidade de compreensão conforme seus recursos intelectuais; capacidade de concentração; interesse; relação da aula com seus saberes; realidade; e, imaginação. As situações de aprendizagem também precisam ser aplicadas sempre moldando-se à necessidade e à capacidade de cada aluno.
        Assim, por todas estas considerações foi que consideramos importante abordar a gestão de aula na Educação Física Escolar.

Referências
ARENDS, R. Aprender a ensinar. Lisboa: McGraw-Hill, 2005.

GALLAHUE, D.L.; DONNELLY, F.C. Educação Física desenvolvimentista para todas as crianças. 4. ed. São Paulo: Phorte, 2008.

GARIGLIO, J.A. A cultura docente de professores de Educação Física de uma escola profissionalizante: saberes e práticas profissionais em contexto de ações situadas, 2004. Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004.

PERRENOUD, P. Dez novas competências para ensinar: convite à viagem. Porto Alegre: Artmed, 2000.

domingo, 8 de janeiro de 2012

A COMPETÊNCIA PEDAGÓGICA DO PROFESSOR... DE EDUCAÇÃO FÍSICA

Hugo Norberto Krug

Algumas considerações iniciais sobre a competência pedagógica do professor de Educação Física
        Considerando que este ensaio faz parte do espaço formativo do GEPEF intitulado “Cenas e cenários sobre formação e prática pedagógica de professores de Educação Física”, o mesmo tem como objetivo abordar a importância da competência pedagógica do professor... de Educação Física.
        Neste direcionamento citamos Tricoli (1993) que refletindo sobre a questão da qualidade do ensino fundamental e médio na escola, sobre sua deterioração, vincula este problema à formação de professores.
        Krug (1992) ao analisar aulas de Educação Física, verificou que os professores apresentam deficiências pedagógicas, ocasionando assim, problemas para seu bom funcionamento.
        Carreiro da Costa (1988) evidencia que a maximização dos efeitos educativos decorre, numa grande parcela, da competência pedagógica revelada pelo professor.
        Então, se alguns professores carecem de competência pedagógica para ensinar, porque não aprendê-la?
        Conhecimentos, capacidades, habilidades e hábitos de trabalho que são os componentes fundamentais da competência pedagógica, podem ser apreendidos e desenvolvidos durante toda a vida, basta exercitá-los (Matos, 1994).
        Segundo Krug (1992) o caminho para se buscar melhores condições de ensino é melhorar a formação acadêmica, bem como a atuação pedagógica do professor em aula.
        Matos (1994) parte da convicção de que o professor é fundamental para a melhoria do ensino. Para isso terá de atuar eficazmente. A eficácia de sua intervenção depende de múltiplos fatores, dos quais, a competência pedagógica é um fator fundamental, pois implica o saber, o saber fazer e o fazer. Esta autora salienta que, os programas e os sistemas de formação de professores tem de garantirem os pressupostos de uma atuação competente do professor.
        Mas, para um melhor entendimento desta temática precisamos abordar algumas questões, entre elas as descritas a seguir.

A formação acadêmica do professor de Educação Física
        A formação de professores de Educação Física apresenta problemas tais como: a desvinculação entre a teoria desenvolvida nos cursos e a prática aplicada na educação escolar (Sant'Ana; Godoy, 1994); a ausência de um perfil profissional a formar (Miyagima, 1994); a distância entre a universidade e a escola (Taffarel, 1992), bem como a desvalorização das licenciaturas em relação aos outros cursos superiores (Miyagima, 1994).
        Estes problemas, entre outros, resultam numa deficiente formação de professores (Tricoli, 1993), os quais muitas vezes, no exercício de sua profissão não correspondem ao padrão de uma educação de qualidade (Garanhani, 1994).
        Em decorrência das discussões sobre os problemas da formação de professores, a qualidade dos cursos de graduação em Educação Física, tem sido investigada e relatada em inúmeros estudos da área (Costa, 1988; Oliveira, 1989; Möcker, 1993). Os resultados tem revelado com freqüência que a formação profissional se encontra desarticulada e desvinculada da realidade social concreta, privilegiando a formação esportiva e o desenvolvimento das habilidades motoras. Os currículos são organizados procurando atender os interesses do corpo docente e operacionalizados em disciplinas isoladas com conteúdos fechados.
        Para Verenguer (1995), mesmo após a Resolução 003/87 do CFE, os currículos da maioria dos cursos de graduação em Educação Física dão ênfase a formação profissional voltada, basicamente, para trabalhar com o desporto. Complementa dizendo que, os currículos formadores de professores não estão capacitando adequadamente o profissional para atuar como educador, e sim, mais para ser técnico desportivo.
        Sant'Ana e Godoy (1994) colocam que o recém saído da faculdade, no caso o profissional de Educação Física, na maior parte das vezes, segue dois caminhos: ou realmente vai aprender o que já deveria conhecer para o seu exercício profissional, ou entrará em um sistema repetitivo de erros e acertos, que só contribuem para o empobrecimento do perfil da classe.
        Miyagima (1994) coloca que o desencadeamento de um processo de superação de todos estes problemas com a formação de professores é um compromisso desafiante para a universidade.

A competência pedagógica do professor de Educação Física
        No sentido de superação de problemas e sem impor modelos de formação ou processos de tornar alguém professor, Matos (1994) trás um conjunto de reflexões que tentam situar a competência do professor e, em especial a "parte" mais específica da sua competência - a competência pedagógica, como uma questão central da formação de professores. A autora complementa dizendo que, a reflexão sobre o que torna um professor competente sempre existiu, sendo num primeiro ponto de vista, muito forte a crença de que a competência pedagógica é uma qualidade inata do indivíduo, e neste caso, o ensino não seria mais que uma arte, e a competência pedagógica floreceria naturalmente em uns indivíduos, enquanto aos outros, estava vedado o acesso a tal condição. Num segundo ponto de vista, situa-se o entendimento da competência pedagógica do professor como um conjunto de habilidades treináveis, que poderiam ser definidas e objeto de uma apropriação analítica.
        Krug (1992) afirma que, no Brasil, a competência pedagógica tem sido pouco valorizada nas instituições formadoras, pois constata-se que, na maioria dos currículos e programas, existe uma atenção muito reduzida ao desenvolvimento desta competência.
        Garantir ao professor as condições pessoais para o sucesso é o grande problema que a formação tem de equacionar, procurando conhecer o que é, e como se desenvolve a competência pedagógica do professor (Matos, 1994).
        A mesma autora, diz que, estruturar em torno da competência profissional a formação inicial do professor, pressupõe o conhecimento exato de cada uma de suas componentes (política, pedagógica, social, científica, etc.). A competência pedagógica é merecedora de uma análise privilegiada, tanto mais que constitui uma ponte, tanto da teoria para a prática, como da prática para a teoria. Portanto, ela deve ser encarada como uma exigência muito clara e precisa da formação do professor.
        Segundo Siedentop (1983), a competência pedagógica é o domínio da atividade do professor no processo pedagógico, entendido como uma relação de reciprocidade entre alunos e professor, sob a direção deste. O mesmo autor, explica que, saber muito acerca de ensino não significa que se seja um professor competente.
        A competência pedagógica implica o saber, o saber fazer e o fazer. Ainda que, o êxito da atividade pedagógica não possa ser reduzido à competência pedagógica do professor, esta é uma qualidade importante da sua competência profissional, é a sua parte essencial, pois reporta-se ao domínio decisivo da atividade do professor.
        Para Matos (1994) os componentes fundamentais da competência pedagógica são: A) os conhecimentos; B) as capacidades; C) as habilidades; e, D) os hábitos de trabalho.

A) Conhecimentos
Se o conhecimento é o pressuposto para o professor decidir livremente, terá de ser preocupação da formação de professores não só a quantidade do conhecimento fornecido, mas, fundamentalmente, a sua qualidade, isto é, a sua relevância, pertinência, atualidade e relatividade, bem como a forma como é estimulada a sua apropriação.
Não há, competência sem conhecimentos, sendo, nesse sentido, que os conhecimentos são freqüentemente designados como os componentes fundamentais da competência. Sem os conhecimentos, não é possível formar capacidades, nem habilidades para a atividade pedagógica, que terão de serem trabalhadas em referência aos conhecimentos. Esta importância particular dos conhecimentos, no desenvolvimento da competência pedagógica, resulta do fato de toda a ação consciente depender da existência de variados conhecimentos, pois ninguém faz o que não sabe. O professor tem que possuir conhecimentos objetivos a respeito de tudo o que for relevante para o processo pedagógico.
Mas que conhecimentos o professor deve possuir?
O professor deve possuir os seguintes conhecimentos:
a) conhecimentos relativos à disciplina que leciona, que são os conhecimentos específicos que permitem decidir corretamente em relação a matéria de ensino. Não havendo conhecimento da matéria da disciplina, os conhecimentos estritamente pedagógicos não se justificam. Conhecer o que se ensina é determinante para a competência pedagógica;
b) conhecimento do conteúdo da matéria da disciplina tem de ser um conhecimento sólido, integrado e não fragmentado, de fatos e conceitos. É requerida a compreensão da estrutura do conteúdo. É a compreensão desta estrutura do conhecimento que fundamenta a intervenção pedagógica do professor;
c) conhecimento pedagógico do conteúdo, pois não basta ao professor saber a matéria para si. Ele tem de saber transferi-la, torná-la acessível e compreensível aos outros. Este conhecimento pedagógico do conteúdo traduz-se no conhecimento de: formas mais úteis de representação da matéria; de exemplos e demonstrações mais sugestivas; do que normalmente facilita ou dificulta a apropriação de determinados aspectos da matéria; dos erros e dos automatismos incorretos mais freqüentes; e de idéias pré-concebidas que os alunos tem em relação a aspectos da matéria;
d) conhecimento curricular do conteúdo, que permite uma seleção da extensão e profundidade a ser dada às diferentes matérias. Permite ao professor fazer opções face à condicionalismos externos e imprevistos, articular horizontal e verticalmente a sua disciplina;
e) conhecimento acerca dos valores, pois uma vasta reflexão sobre as finalidades da ação educativa e da formação de professores será também uma maneira de não cair numa formação que só se preocupe com os aspectos técnicos do ato educativo;
f) conhecimento de normas, que é fundamental para a adaptação do professor à situação educativa, sejam normas teóricas, estatísticas ou genéricas; e,
g) conhecimento de procedimentos, pois estes contém instruções, regras, prescrições e programas para a realização das finalidades pedagógicas. A este conhecimento pertencem unicamente os procedimentos na atividade docente e não o conhecimento acerca da forma e modo de os alunos apropriarem saber e aprenderem mais racionalmente.

B) Capacidades
Capacidade é a particularidade das pessoas poderem executar determinadas atividades ou complexos de atividades.
As capacidades pedagógicas formam-se no processo do confronto ativo do indivíduo com as exigências progressivamente unitárias e diferenciadas que a atividade pedagógica coloca.
É com base na especificidade da estrutura da atividade pedagógica e na essência das exigências da competência pedagógica que são referidas as seguintes capacidades pedagógicas:
a) capacidades didáticas (escolha e estruturação da matéria de ensino), que permitem uma transmissão eficaz da matéria, organizá-la de acordo com as particularidades dos alunos, estimulá-los, mobilizar a sua atenção, ultrapassar a sua falta de participação, o seu cansaço e fadiga;
b) capacidades construtivas, que permitem previsão, antecipação e planejamento;
c) capacidades organizativas, que permitem organizar as atividades do professor e dos alunos;
d) capacidades comunicativas, que permitem estabelecer as melhores relações entre professor e os alunos;
e) capacidades expressivas, que permitem uma apresentação ótima das idéias, dos conhecimentos, das convicções e propostas do professor;
f) capacidades perceptivas, que permitem conhecer no aluno as suas qualidades positivas e utiliza-las o melhor possível no processo educativo;
g) capacidades sugestivas, que permitem influenciar e alargar o campo de interesses, de motivos, de necessidades, de hábitos e convicções do aluno e forjar neste uma vontade forte de ultrapassar barreiras, dificuldades, fraquezas e insuficiências;
h) capacidades de trabalho científico, atualização e aplicação de conhecimentos, pois estas capacidades são indispensáveis ao professor no sentido de sua formação permanente. É ainda importante realçar a necessidade de o professor investigar o seu próprio trabalho; e,
i) capacidades culturais, que permitem utilizar na atividade pedagógica a formação geral do professor.

C) Habilidades
Habilidade é uma componente automatizada da ação consciente do homem, adquirida na realização desta mesma atividade.
As habilidades pedagógicas exercem uma função importante na execução de ações pedagógicas complexas. Através da execução de determinadas ações parciais estas são automatizadas, libertando-se o professor da necessidade de lhe consagrar mais atenção, podendo assim concentrar-se na ação global, no seu objetivo.
A aquisição de habilidades pedagógicas serve para apoiar a segurança e a fluência do decurso da ação. Isto é, aumentando as habilidades pedagógicas, o professor ficará mais disponível para atender ao imprevisto do ato pedagógico, para dirigir a sua atenção para as complexas e para poder ser criativo. A complexidade da ação educativa exige a aquisição de habilidades por parte do professor, exatamente para que este possa ficar liberto para a constante novidade que é a atividade pedagógica.

D) Hábitos de trabalho
Os hábitos são componentes automatizados da ação.
Para o professor é de muita importância não apenas desenvolver uma larga escala de habilidades, mas também, transformar em hábitos parte dessas habilidades.
É pela formação de hábitos que os elementos da atividade pedagógica adquirem continuidade. A formação de hábitos do professor precisa para se processar de um largo período de tempo de desempenho da atividade pedagógica. Como, durante a formação acadêmica não só o tempo para a atividade é reduzida como esta, muitas vezes não é realizada nas condições reais em que se vai desenrolar futuramente a atividade do professor. Daí que a criação de hábitos tenha de ser equacionada na continuidade da formação e nos primeiros anos de exercício profissional.
Com esta breve abordagem dos componentes fundamentais da competência pedagógica, pode-se então verificar que, a competência pedagógica não é algo que se adquire de forma terminal. Pelo caráter dinâmico da sociedade, entendida como ponto de partida e de chegada do conhecimento, o mesmo, assume também esse dinamismo, tornando-se mutável, ilimitado e histórico.
Dessa forma, impõe-se ao profissional que lida com o conhecimento, a necessidade de uma atualização permanente, diante de uma realidade renovável e em construção permanente.

A formação continuada do professor de Educação Física
        De acordo com Marques (1992) a formação do profissional em Educação Física não se encerra na formação acadêmica, e sim, se estende por todo o seu exercício profissional. Salienta que a formação acadêmica deve despertar o futuro profissional para o enriquecimento pessoal constante, da sempre atualização, da busca de soluções, sendo então assim, um eterno estudioso.
        Nogueira (1993) coloca que os professores de Educação Física estão cientes de que o conhecimento, a experiência e a vivência de sucesso produzem a sensação de competência.
        Para manter a competência profissional, segundo Matos (1994), há necessidade de fazer reciclagens, e a formação continuada deve ser potencializada face às necessidades sentidas pelos diretamente interessados.
        Portanto, o professor deve estar aberto para: a) realizar avaliações concretas de sua atuação, utilizando a hetero e a auto-avaliação, como forma de controlar a evolução do seu perfil; b) planejar e investigar o próprio ensino; c) criar autonomia e responsabilidade; d) tornar as aulas eficazes; e, e) diversificar a sua atividade como docente. Esta mesma autora, diz que, na formação continuada, os professores de Educação Física podem aprender novas técnicas e atitudes, transferi-las para o seu trabalho diário e integrar o que aprenderam no seu repertório de atuação.
        Vários estudos sobre a formação continuada de professores de Educação Física tem evidenciado que existe uma acomodação, uma alienação e dasatualização destes profissionais em relação à Educação Física (Dieckert, 1981; Nogueira, 1993; Mattos, 1994). Para Dieckert (1981) o principal motivo para esse quadro é o de que a formação do professor de Educação Física não o qualifica o suficiente para um aperfeiçoamento contínuo.
        Nogueira (1993) diz que, os professores têem a consciência da perda do saber e ressentem-se da falta de armas e incentivos para resistir e superar a desmotivação vigente. Coloca também que, o afastamento de atividades de atualização é fatal para a Educação Física escolar. Isto porque, conhecimento parado se deteriora, e pior ainda, como o conhecimento é mutante, pois o homem se transforma a cada dia, se ficar parado por muito tempo torna-se obsoleto, pois em algum lugar, outra forma de conhecimento está sendo desenvolvida. Mas, produzir conhecimento não é suficiente. É necessário fazê-lo chegar a todos. Salienta ainda que, a produção universitária não está chegando aos professores de Educação Física nas escolas. A divulgação pela universidade de trabalhos de boa qualidade valorizará a produção de seus alunos, e, ao mesmo tempo, permitirá a melhoria do desempenho do professor. A integração do conhecimento teórico produzido na universidade com a experiência que os professores possuem, sem dúvida, será um benefício a todos.
        Marques (1992) destaca que todas as instituições responsáveis pela educação devem ser envolvidas nos processos da formação continuada do educador. Cumpre, no entanto, salientar a responsabilidade específica da universidade, pois esta não é atributo apenas do processo formativo formal. Deve dar continuidade ao processo, propiciando condições de formação continuada.

Algumas considerações finais sobre a competência pedagógica do professor de Educação Física
        A competência pedagógica deve ser encarada como uma questão central na formação de professores, sendo que, no Brasil, tem sido pouco valorizada nas instituições formadoras. Garantir ao professor as condições pessoais para o sucesso é o grande problema que a formação tem de equacionar, procurando conhecer o que é, e como se desenvolve a competência pedagógica do professor.
        A competência pedagógica é o domínio da atividade do professor no processo pedagógico, entendido como uma relação de reciprocidade entre alunos e professor, sob a direção deste. Portanto, a atividade do professor é o objeto do desenvolvimento da competência pedagógica.
        Os conhecimentos, as capacidades, as habilidades e os hábitos de trabalho são os componentes fundamentais da competência pedagógica. O conhecimento fundamentado é um pressuposto básico para a competência pedagógica, pois ninguém faz o que não sabe. A competência pedagógica não é algo que se adquire da forma terminal, pois o conhecimento é dinâmico, tornando-se mutável, ilimitado e histórico, impondo ao professor a necessidade de uma atualização constante.
        A essência do processo de formação continuada reside no caráter crítico-pedagógico que deve atingir todos os professores, instigando-os a detonar, através da própria atuação em seus locais de trabalho, o processo de transformação da prática.
        Para manter a competência profissional, há necessidade de fazer reciclagens, e a formação continuada deve ser potencializada face as necessidades sentidas pelos diretamente interessados.
        O afastamento das atividades de atualização, por parte dos professores, é fatal para a Educação Física escolar.
        Todas as instituições responsáveis pela educação devem ser envolvidas nos processos da formação continuada do educador. Cumpre, no entanto, salientar a responsabilidade específica da universidade, pois não é atributo apenas do processo formativo formal. Deve dar continuidade ao processo, propiciando condições de formação continuada.

Referências
CARREIRO DA COSTA, F.A.A. O sucesso pedagógico em Educação Física, 1988. Tese (Doutorado) - Faculdade de Motricidade Humana/Universidade Técnica de Lisboa, Lisboa, 1988.

COSTA, V.L.M.A. Formação universitária do profissional de Educação Física In: S.C.E. PASSOS (Ed.). Educação Física e esporte na universidade. Brasília: SEED/MEC, 1988.

DIECKERT, J. Avaliação da Educação Física permanente em professores de Educação Física. Artus, a.9, n.11, p.147-150, 1981.

GARANHANI, M.C. Movimento entre universidade e o ensino básico. Synopsis, Curitiba, v.5, p.30-32, 1994.

KRUG, D.H.F.O. Processo na busca da competência pedagógica. In: SEC/RS. Educação para crescer: Projeto de melhoria da qualidade de ensino - Educação Física / 1° e 2° graus. Porto Alegre: Governo do Estado do Rio Grande do Sul, 1992. p.11-13.

MARQUES, M.O. A formação do profissional da Educação. Ijuí: Editora UNIJUÍ, 1992.

MATOS, Z.A. Avaliação da formação dos professores. Boletim da Sociedade Portuguesa de Educação Física, Lisboa, a.10, n.11, p.53-78, 1994.

MATTOS, M.G. de. Vida no trabalho e sofrimento mental do professor de Educação Física da escola municipal: implicações em seu desempenho e na vida profissional, 1994. Tese (Doutorado) - Faculdade de Educação: USP, São Paulo, 1994.

MIYAGIMA, M. da G.N. Formação do professor de Educação Física: para a escola e/ou fora dela? Synopsis, Curitiba, v.5, n.5, p.33-38, 1994.

MÖCKER, M.C. de M. Currículo e formação profissional em Educação Física. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Santa Maria, v.14, n.2, p.60-70, 1993.

NOGUEIRA, E. Atualização das professoras de Educação Física. In: VOTRE, S. (Org.). Ensino e avaliação em Educação Física. São Paulo: IBRASA, 1993.

OLIVEIRA, A.A.B. de. Análise crítica do currículo das disciplinas práticas do curso de Educação Física da Universidade Estadual de Maringá. Revista da Educação Física, Maringá, v.1, n.0, p.17-25, 1989.

SANT'ANA, M.; GODOY, E.S. de. A relação teoria-prática-teoria. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Santa Maria, v.16, n.1, p.54-60, 1994.

SIEDENTOP, D. Developing teaching skills in Physical Education. 2. ed., Ohio: Mayfield Publish Company, 1983.

TAFFAREL, C.N.Z. Análise dos currículos de Educação Física no Brasil - Contribuições ao debate. Revista da Educação Física, Maringá, v.3, n.1, p.48-56, 1992.

TRICOLI, V.A.A. Caracterização acadêmica-profissional da Educação Física. Revista da Associação dos Professores de Educação Física de Londrina, Londrina, v.VIII, n.15, p.16-19, 1993.

VERENGUER, R. de C.G. Preparação profissional em Educação Física. In: Simpósio Paulista de Educação Física, V, 1995, Rio Claro. Anais..., Rio Claro: UNESP, 1995. p.74.

A AUTO-ESTIMA, AUTO-IMAGEM E/OU AUTO-CONCEITO DO PROFESSOR... DE EDUCAÇÃO FÍSICA

Hugo Norberto Krug

Algumas considerações iniciais sobre auto-estima, auto-imagem e/ou auto-conceito docente
        Considerando que este ensaio faz parte do espaço formativo do GEPEF intitulado “Cenas e cenários sobre formação e prática pedagógica de professores de Educação Física”, o mesmo tem como objetivo abordar a questão da auto-imagem, auto-estima e/ou auto-conceito e a importância destes no desenvolvimento da prática pedagógica do professor... de Educação Física.
        Neste direcionamento citamos Marquezan (1998) que coloca que a auto-estima, a auto-imagem e/ou auto-conceito são construídos a partir da formação de conceitos/preconceitos imaginários e simbólicos. A partir das vivências sócio-culturais da família, da escola, dos grupos de iguais, vamos internalizando os valores grupais e sociais, e vamos constituindo historicamente a nossa subjetividade, a nossa identidade.
        A autora destaca que pensar e representar estas questões, é fundamental em relação ao desenvolvimento do ser humano; seja ele criança, adolescente, adulto ou idoso.
        A auto-imagem e a auto-estima determinam a maneira pela qual uma pessoa percebe, sente e responde ao mundo. Daí, a importância de estudarmos e criarmos espaços que proporcionam o seu desenvolvimento (Marquesan, 1998).
Deste modo, torna-se importante conhecer e compreender o processo de construção da auto-imagem, auto-estima e auto-conceito, pois isto pode ser um dos fatores determinantes para a obtenção do sucesso docente, vindo, portanto,a contribuir no processo de formação permanente do professor.
        Mas, para um melhor entendimento desta temática precisamos abordar mais detalhadamente o processo de construção da auto-imagem, auto-estima e/ou auto-conceito.

O processo de construção da auto-estima, auto-imagem e/ou auto-conceito
        Segundo Marquezan (1998) auto-estima é a vivência de sermos apropriados à vida e às exigências que ela faz. Mais especialmente, auto-estima é: a) a confiança em nossa capacidade para pensar e enfrentar os desafios e problemas da vida; e, b) a confiança em nosso direito de sermos felizes, a sensação de sermos competentes, dignos, autônomos e qualificados para expressar e satisfazer nossas necessidades, desejos, motivação, sonhos, imaginação e desfrutar das nossas realizações por mais humildes que elas sejam.
        De acordo com Branden (1997) a auto-estima fundamenta-se em seis pilares atitudinais: 1) A atitude de viver conscientemente; 2) A atitude de auto-aceitação; 3) A atitude de auto-responsabilidade; 4) A atitude de auto-afirmação; 5) A atitude de intencionalidade; e, 6) A atitude de integração pessoal.
        Mosquera (1977) afirma que a identidade psicológica é um processo abrangente que engloba a auto-imagem e a auto-estima.
        A auto-estima está intimamente relacionada com a auto-imagem e decorre da maneira como os demais a vêem. A auto-estima depende da auto-imagem. É a avaliação que a pessoa faz de si que a conduz a gostar, daquela imagem em diferentes graus, estimá-la e respeitá-la.
        Rosemberg (1973) define auto-estima como uma atitude positiva ou negativa em relação a si mesmo.
        Este mesmo autor apresenta duas conotações diferentes para o termo:
1) Auto-estima alta - é quando a pessoa se respeita e estima, sem considerar-se melhor ou pior que os outros e sem acreditar-se perfeita, reconhecendo suas limitações e esperando melhorar e amadurecer; e,
2) Auto-estima baixa - é quando a pessoa está insatisfeita, rejeita e despreza a si mesma, não se respeitando pelo que observa em si, mas, ao contrário, deseja mudar porque lhe desagrada.
        A auto-estima alta e baixa dependem das experiências positivas e negativas, especialmente as relativas à afeição, ao amor, à valorização, ao sucesso ou ao fracasso vivenciadas pela pessoa ao longo do tempo.
        Rosemberg (1973) assinala ainda a influência de fatores sociais, como classe social, religião, raça e outros sobre o desenvolvimento da auto-estima bem como o prestígio no grupo, a posição do adulto no mundo ocupacional, o fracasso ou o êxito na escola e na profissão.
        Briggs (1972) destaca a importância da força das influências das pessoas significativas no desenvolvimento da auto-imagem e da auto-estima do ser humano.
        O auto-conceito se forma através das mediações sócio-culturais ao longo do desenvolvimento. Isto quer dizer que o auto-conceito é aprendido. Ele decorre das expectativas que cada pessoa tem sobre a vida, os sentidos, os sentimentos, os seus significados, os valores, etc.
        O auto-conceito pode ser mantido e realizado através de processos como: a) auto-realização; b) aquisição de um senso de identidade; c) realização e domínio de objetivos importantes; d) prática da consciência de que o sujeito histórico se constrói com autonomia, dentro de um processo emancipatório que crie espaços para a construção de uma identidade individual e coletiva; e, e) formação da consciência crítica, tornando a pessoa distinta, singular, única, possibilitando um relacionamento intrapessoal e interpessoal competente, honesto, verdadeiro, transparente, empático, fraterno, justo, etc.
        Segundo Branden (1997) a auto-estima é a disposição da pessoa para se vivenciar como alguém competente e merecedor de felicidade. Implica num conceito positivo de si mesmo, necessário e essencial para uma vida de plenitude. Auto-amar-se é a chave para a saúde, o sucesso, o auto-conhecimento, o heteroconhecimento e a felicidade.
        O desenvolvimento do auto-conceito, da auto-estima abrange três domínios (Marquezan, 1998): a) o contexto no qual o desenvolvimento ocorre; b) as características pessoais (biológicas ou psicológicas) da pessoa presente neste contexto; e, c) processo através do qual o desenvolvimento emerge.

Algumas considerações finais sobre auto-estima, auto-imagem e/ou auto-conceito docente
        O êxito e o fracasso do futuro professor de Educação Física, por ocasião do desenvolvimento de seu estágio curricular, se relaciona entre tanto outras variáveis com a personalidade do próprio acadêmico, em especial com sua auto-imagem, auto-estima e ou seu auto-conceito e, estas por sua vez dependem do contexto escolar (professores, colegas, especialistas) assim como do contexto familiar e social mais amplo.
        Salientamos a importância da auto-estima alta para que o futuro professor de Educação Física ao realizar seu estágio curricular possa ter controle de impulsos, expressão adequada de emoções e manutenção de relacionamentos. Segundo Marquezan (1998) estes são aspectos essenciais ao equilíbrio e auto-controle emocional, à resistência ao estresse e ao processo decisório, à autonomia e à própria felicidade.
        Finalmente, poderíamos dizer que uma auto-estima positiva decorre de quanto aprendemos a nos libertar e a libertar os outros; decorre também do quanto somos independentes, autônomos, autênticos e felizes.

Referências
BRANDEN, N. Auto-estima e os seis pilares. São Paulo: Saraiva, 1997.

BRIGGS, D.C. El niño feliz. Buenos Aires: Ghanica, 1972.

MARQUEZAN, L.I.P. Auto-estima, auto-imagem e/ou auto-conceito. Revista Cenas e Cenários: reflexões sobre a Educação, p.104-115, 1998.

MOSQUERA, J.M. Psicodinâmica do aprender. Porto Alegre: Sulina, 1977.

ONOFRE, M.S.; FIALHO, M. Diagnóstico dos problemas da prática pedagógica em Educação Física: o caso dos professores estagiários. In: Congresso de Educação Física e Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa, IV, 1995, Coimbra. Anais..., Universidade de Coimbra, Coimbra, 1995. p.EF-45.

ROSEMBERG, M. Society and the adolescent self-image. Princeton: Princeton University Press, 1973.